A reputação é, sem dúvida, o patrimônio mais frágil que o ser humano pode construir. O que levamos anos para erguer, bastam alguns minutos (por vezes segundos) para que tudo seja reduzido a pó. Na era da hiperconexão, a fofoca ganha a velocidade da banda larga, transformando o celular em uma arma perigosa nas mãos daqueles que não têm compromisso com a verdade, mas têm sede de destruição alheia.
Nos últimos dias, a cidade de Floriano foi atropelada por um roteiro digno de folhetim barato, que rapidamente ganhou as rodinhas de conversa e os grupos de mensagens sob o título de “Surubão de Floriano”. A história, que relata uma suposta orgia ocorrida em uma mansão da cidade, veio carregada de detalhes sórdidos, narrativas gráficas e, o mais grave, uma lista de nomes e sobrenomes de pessoas reais.
O motor dessa engrenagem difamatória? Áudios gravados por terceiros, supostas traições e prints de status tirados de contexto. Pessoas que relatam com convicção e riqueza de detalhes um evento no qual sequer estavam presentes e sobre o qual não possuem um único fiapo de prova material. Trata-se do clássico e irresponsável "ouvi dizer", que, ao cair na rede, é consumido e repassado como verdade absoluta.
O que os fofoqueiros de plantão, inebriados pelo calor do escândalo, parecem esquecer é que a internet não é uma terra sem lei e o WhatsApp não confere imunidade jurídica a ninguém. O Código Penal Brasileiro é cristalino quando trata dos crimes contra a honra. Imputar a alguém um fato ofensivo à sua reputação configura o crime de Difamação (Art. 139). E se a história for inventada, dependendo do contexto, pode configurar Calúnia (Art. 138).
É fundamental que se diga: a legislação não pune apenas quem cria a mentira ou grava o áudio original. Quem compartilha, repassa ou dá publicidade à difamação comete o mesmo crime. Aquele simples toque no botão "encaminhar" pode resultar em processos criminais, pagamento de pesadas indenizações por danos morais e, ironicamente, na ruína financeira e moral de quem achou que estava apenas "repassando uma fofoca".
Mas, para além da esfera criminal, o episódio do “Surubão de Floriano” nos convida a uma reflexão profunda sobre a nossa própria estrutura social. A cultura do fuxico é uma prática provinciana que sobrevive da vigilância mútua. Em sociedades que ostentam uma fachada puritana e conservadora, o dedo que aponta para o suposto "pecado" do outro é, quase sempre, um mecanismo de projeção.
O fascínio doentio pelo que acontece (ou supostamente acontece) entre quatro paredes revela muito mais sobre a sociedade que consome e espalha o boato do que sobre os personagens envolvidos na trama. A pressa em julgar e apedrejar em praça pública digital escancara uma hipocrisia latente: sob o manto de guardiões da moral e dos bons costumes, escondem-se voyeurs frustrados, que encontram na destruição da vida alheia o único entretenimento para a sua própria mediocridade.
Assim como no jornalismo sério — pautado na apuração, no contraditório e na responsabilidade — a dúvida sempre deve ser o antídoto contra esse veneno chamado fuxico. Porém, a responsabilidade de frear o tribunal do WhatsApp é de todos nós. Antes de dar palco a um áudio ou prints anônimos ou repassar uma lista de nomes sem qualquer comprovação, é preciso olhar no espelho. A reputação que você ajuda a destruir hoje com um clique pode ser muito bem a sua amanhã.






Comentários (0)
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Comentar